Agô! Peço licença aos Deuses do Candomblé para falar um pouco mais dessa religião que muitos acreditam ser ainda uma cultura popular e, na verdade, é.
Oriundos da África, os negros-escravos encontraram no Candomblé uma fuga para a vida martirizada, cheia de sofrimento e exploração na qual viviam.
Em lugares distantes, geralmente nas matas, os negros cultuavam os Orixás, louvando e adorando os “pés-de-vento” (nome dado às entidades do Candomblé) com inquices, cantigas e oferendas.
Porém, essa adoração tinha de ser acompanhada pelo sincretismo religioso, pois os senhores, donos dos escravos, não admitiam outro tipo de religião/seita que não fosse a sua, ou seja, a Católica. Por isso, os negros foram obrigados a fazer associações entre os santos Católicos e as divindades do Candomblé. Só assim sua seita religiosa poderia sobreviver, como sobrevive até hoje, e a cada dia tomando mais espaço.
No final do século XIX, período que marcava o fim da escravidão, os negros fugiram para as áreas urbanas e começaram a propagar sua religião. A partir de 1960, o Candomblé começa a se expandir, e aquela seita que era exclusiva de grupos negros descendentes de escravos, começa, agora, a adquirir adeptos de todas as raças e passa a não ficar só confinada na Bahia e Pernambuco, lugares onde se têm, com maior intensidade, o culto afro.
A palavra Candomblé sugere vários tipos de ritos, com diferentes ênfases culturais, aos quais damos o nome de nações. Elas se diferem, sobretudo, na forma de falar - devido ao local de origem -, nas cantigas, vestimentas e fundamentos. São três os principais tipos de nação: Ketu, Angola e Jeje-mahim.
A nação Ketu é a mais conhecida entre elas. Aqui predominam os Orixás e ritos de iniciação iorubá, língua oriunda do Golfo da Guiné. Ela serve de “exemplo” para as outras nações, que adotam muitas de suas práticas em seus rituais.
A nação Angola é de origem banto, língua adotada pelos povos da Angola e Moçambique, porém incorpora muitas práticas iorubás em seus cultos. Nesta nação é comum se praticar o culto aos caboclos como principal tarefa.
E, por último, a nação Jeje-mahim, que tem como origem a língua ewê-fon, também trazida do Golfo da Guiné. Essa nação quase não é mais vista nos terreiros de Candomblé, porém é a mais velha de todas e a grande responsável pela formação dos Candomblés de língua iorubá, como a nação Ketu.
Dentro da seita do Candomblé, há muitos mistérios que só quem é feito (iniciado/Yawô) tem acesso e muitas vezes só os Babalorixás (Baba=pai, Orixás=Divindades; Pai das Divindades ou Pai de Santo) ou Yalorixás(Ya=Mãe, Orixá=Divindade; Mãe das Divindades ou Mãe de Santo), sacerdotes da religião, Ogans e Equedes, espécie de substitutos dos pais e mães-de-santo, são quem os conhece.
Dentre esses mistérios, estão as oferendas, que são sacrifícios de animais oferecidos aos Orixás, ou usados em algum tipo de ebó (trabalhos, limpezas, etc). Há ainda a Jurema, bebida oferecida em festas de Caboclos, cujo conteúdo é desconhecido. Os pontos, oferecidos aos Orixás, cada qual com finalidades específicas: para chamar o Orixá, para o Orixá tomar Run (dançar no barracão - salão extenso onde acontecem as festas), para o Orixá se despedir, etc. Sem falar do jogo dos búzios, que revela os mistérios de sua vida, dom concebido somente aos sacerdotes.
Falar do Candomblé, porém, é um trabalho muito grande, que precisaria de páginas e mais páginas, e ainda assim não seria concluído.
O que se sabe é que essas forças, chamadas de Orixás, vêm do Cosmo e representam as forças da natureza, tendo ligação direta com os elementos terra, fogo, água e ar, e tudo o que está contido neles. Cada elemento desses representa um Orixá, ou melhor, alguns Orixás.
E mais ainda, essas forças naturais, quando clamadas com fé e crença, têm muito valor. As pessoas buscam nos Orixás, Caboclos (espírito de índios), Marujos (Eguns – espírito de marinheiros) e Erês (espírito de crianças) a força, o conselho, o conforto para suas vidas.
Ao som dos atabaques e agogôs, por baixo das vestimentas, por cima dos mistérios, com as estripulias dos Erês, com a seriedade dos Caboclos e Marujos e com a benção dos Orixás, essa religião, recheada de prazeres, beleza, mistérios e muita responsabilidade, guarda e acolhe, sem distinção, todos que precisam e têm fé e que procuram nela uma alegria para viver.
“Olorum mudupé”. Que os Orixás nos acompanhem hoje e sempre.
Axé para todos!
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